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Hélio José Guilhardi (IACCAMP/PUCCAMP)
Classicamente, o behaviorismo é conhecido pela proposta que foi
feita em 1913 por Watson. Então, quando a gente faz críticas
a respeito do behaviorismo, a gente quase sempre está se referindo
ao behaviorismo Watsoniano, sem ter muita noção disso.
Então, olhando um pouquinho onde se localiza o behaviorismo, nós
podemos dizer que teríamos a psicologia como uma área ampla
e a psicologia divididas em escolas, em métodos de investigação,
em subgrupos enfim. Uma destas escolas ou uma destas áreas de pesquisas
(porque alguns acham que o behaviorismo não é uma escola,
outros que é uma área de investigação, outros
que é uma área de reflexão, vai depender de que autor
a gente está buscando apoio). O behaviorismo seria uma área
da psicologia, e tem outras áreas e propostas como a psicanalítica,
rogeriana e assim por diante.
A área odiada da psicologia é o behaviorismo. Então
o que seria o behaviorismo?
Hoje em dia, os autores modernos dizem que não há condição
de você definir o que é behaviorismo. O que é behaviorismo?
Bem, depende a respeito de que autor você está perguntando,
e em que época você está buscando essa informação.
Seria mais correto dizer que o behaviorismo tem uma "família
de significados".
Então, se eu fosse definir o behaviorismo por exemplo segundo
Watson, em 1913, eu chegaria a uma definição mais ou menos
do seguinte tipo: "O behaviorismo é o estudo do comportamento
observado". Então, nesse sentido, ele é mais ousado
porque Watson tinha uma característica de personalidade bastante
agressiva e segundo ele, não existiria outra psicologia. Se deixasse
por conta de Watson, ele tornaria o behaviorismo igual a psicologia. Psicologia
só existe se for o estudo do comportamento observado e aqui está
implícito também, quando ele fala de comportamento observado
por dois ou mais observadores, a influência positivista (ele não
fala, mas está implícito). O que quer dizer, como conseqüência,
que ele não dava espaço para uma psicologia introspectiva.
Isso porque o behaviorismo de Watson de 1913, aparece em oposição
ao estruturalismo de Titchener, que é uma posição
mentalista e que usava como método de investigação,
a introspecção.
Então, não é só uma proposta, vamos chamar
assim, ideologicamente, em defesa da ciência sob a influência
de Pavlov, sob a influência de Newton (físico), sob influência
do positivismo de Comte. Não é só isso, mas também
uma birra pessoal contra Titchener. Você fala do mundo externo e
o mundo interno não existe. É daí que surgem aquelas
clássicas considerações que o behaviorismo nega a
vida interior, nega os sentimentos, nega as fantasias, que o ser humano
seria uma caixa preta dentro dela em caixa vazia, dentro dela não
haveria nada. Então, é essa a primeira definição
de behaviorismo.
Kantor, já na década de 60, faz uma outra posição.
Para Kantor (ele diz assim), esse negócio de behaviorismo não
existe só na psicologia. Onde quer que você estude de uma
certa maneira o seu objetivo, seja ele na física, na biologia,
seja ele na astronomia, seja na vida. Onde quer que você estude
de maneira científica um fenômeno, você estará
fazendo behaviorismo.
Então nesse sentido, levando também até às
últimas conseqüências, na definição de
Kantor, behaviorismo é igual ciência. Behaviorismo seria
para Kantor o "estudo de eventos confrontáveis". Eventos
esses, que tem um mesmo "status".
Para vocês terem uma idéia, a teoria da geração
espontânea na biologia tem receitas para você produzir ratos.
Você pega um canto escuro, joga os restos de comida, panos úmidos
e deixa de repouso por um certo tempo. Depois de 40 a 50 dias, indo lá,
vai encontrar ninhadas de ratos (teoria de geração espontânea).
Então, você explica um fato paupável, a existência
dos ratinhos alí, por uma energia vital que estaria produzindo
seres vivos. Isso não é evento confrontável.
Se vocês compararem, por exemplo, com a visão da genética:
cromossomos da mãe com cromossomos do pai, genes dentro do cromossomo
que geram filhotes, ratos machos com ratos fêmeas, ... Não
precisa ter pano úmido, nem resto de comida. Mudou o nível.
É a mesma coisa da lei da gravidade do tempo de Aristóteles.
Ele dizia que um corpo se aproxima da terra porque ele tem júbilo
em de aproximar da terra e quanto mais próximo da terra esse objeto,
maior o júbilo e portanto mais veloz ele chega. Com essa percepção
ele descreve também a lei da gravidade. Quanto mais próximo,
quanto maior a distância percorrida pelo corpo, mais aceleração
esse corpo tem. Então, é uma visão correta, mas a
noção de júbilo não é confrontável,
e não cientificamente estabelecida como seria na lei de Newton
da gravidade.
Nesse sentido, astrologia seria não behaviorista, a astronomia
seria behaviorista. É uma posição de Kantor, para
mostrar como as coisas vão evoluindo com o passar do tempo.
Uma terceira proposta (eu selecionei três porque elas são
bem ilustrativas) é a de Skinner, mas existem outras. O Skinner
por outro lado diz assim: existe uma tal de "ciência do comportamento".
Quando você vai para o laboratório e pega lá um ratinho,
bota para pressionar a barra (privado de água), o rato pressiona,
ganha água, pressiona e ganha água. Faz isso dezenas, centenas
de vezes, o rato, o jacaré, o elefante e o jaboti. Você verifica
que há uma regularidade nisso. Então, você chega a
um conceito ou lei. Esse conceito, no caso, seria o conceito de reforçamento.
Esse trabalho árduo, objetivo, criterioso, chato, limitado produz
um conceito de reforçamento que é exemplo de ciência
do comportamento. Isso não é behaviorismo para o Skinner,
mas para Watson seria. Para Skinner, o que deriva disso, as questões
teóricas e filosóficas a respeito da ciência do comportamento,
isso sim, seria behaviorismo.
Para Skinner, behaviorismo seria a "filosofia da ciência do
comportamento". Por exemplo: se eu tivesse conhecimento desse negócio
de reforçamento e eu chegasse e perguntasse assim: demonstrando
o princípio de reforçamento com rato, você acha que
esse princípio se aplica com humanos? Esta questão já
não é uma questão empírica. É uma questão
filosófica ou teórica. (Pergunta a um aluno) Você
acha que não, outros achariam que sim, acharão que para
algumas respostas sim, mas não para todos os humanos.
Essa discussão a respeito da extensão do condicionamento,
que é científica, seria para Skinner o behaviorismo.
Outra questão: se eu demonstrar que algumas respostas num ser
humano são controláveis? É uma outra discussão.
Se eu controlar um indivíduo por exemplo. Se eu pegar um paciente
psiquiátrico e controlar esse paciente psiquiátrico. Ele
babando num canto quieto, e eu reforço ele através de modelo,
etc... Aquelas coisas que vocês já conhecem. E eu faço
com que ele venha à mesa e coma com garfo e faca sozinho. Será
que, se eu controlar um ser humano, eu posso controlar uma sociedade?
Todas essas questões constituem preocupações teóricas,
são questões de discussão a partir de dados da ciência
do comportamento. Sempre que as questões surgem a partir disso,
você está fazendo, seguindo Skinner, uma filosofia da ciência
do comportamento. Isto seria o behaviorismo.
Neste sentido, se vocês estiverem numa sala com um professor de
oposição ao behaviorismo que ficasse discutindo com vocês
as validades ou não das propostas Skinnerianas, vocês estariam
no final da aula, numa sala sobre o behaviorismo (pela definição
de Skinner). É óbvio que a coisa não pára
só no blá-blá-blá. É claro que todas
essas questões, para aqueles que estão interessados em respostas,
suscitariam preocupações para vocês voltarem à
investigação. Aí, você volta à investigação,
e a novas respostas, novos dados, novas questões, e o círculo
se repete. Então, quando eu disser ou quando alguém disser:
"você é a favor ou contra o behaviorismo?" - a
primeira questão que vocês têm que levantar é
que depende de qual behaviorismo, de qual autor. Eu sou mais contra um
autor do que outro, me interessa mais uma definição do que
outra definição. Não é possível hoje
você afunilar e dizer behaviorismo é isso.
E aqui estão três exemplos de definições.
Em 1948, um autor chamado MACE, propõe três tipos de behaviorismo
que vou apresentar aqui. O primeiro tipo seria o behaviorismo metafísico.
Basicamente, esse behaviorismo teve vida curta e um único adepto
-Watson- na ânsia de trabalhar só com o observável,
com o que é paupável e demonstrável. Ele cai em outro
extremo que é "meta" (vai além de). O behaviorismo
metafísico nega a existência da mente ou dos eventos mentais.
Contudo, ele poderia apenas questionar, mas ele não tem evidências
para negar. Conseqüentemente, Watson comete um erro lógico.
Os que afirmam que existem sem demonstrar (e é exatamente esta
a crítica dele) estão indo além da evidência.
Aí ele cai em outro extremo. Ele também ao negar, também
o faz sem demonstrar. Daí chamado de behaviorismo metafísico.
Perseguido por essa crítica, que ele estava sendo incoerente com
a sua própria proposta, deu-se então o behaviorismo metodológico.
Esse é o pior de todos. O metafísico teve vida curta. Na
verdade, nasceu prematuro e morreu. O metodológico tem uma forte
influência do positivismo e do operacionismo. Então, pelo
positivismo só é fato aquilo que é observado por
dois ou mais observadores. Isso é um resquício da influência
de Comte que diz que não existiria psicologia do indivíduo.
O que existiria seria sempre no mínimo o evento social. No mínimo
duas pessoas, senão, não existe o fato. Isso é Comte,
criador da Sociologia.
Watson traz para a psicologia toda essa influência e diz que para
nós psicólogos, o fato mínimo é aquele que
é observado pelo menos por duas pessoas, além daquele que
se comporta. Eu posso estar pensando - eu estou observando meu pensamento.
É claro que Watson nem admitiria isso, mas, a proposta do metodológico
é essa. Ele diz que, enquanto no metafísico a ênfase
é no que estudar, a ênfase no metodológico é
como estudar. Então, o behaviorista metodológico diz o seguinte:
não sei se mente existe ou não. É uma posição
mais cautelosa. Porém, existindo ou não, não dá
para estudá-la cientificamente.
Assim, ele foge da crítica do ítem um e coloca uma restrição
metodológica. Dado que não dá para estudar cientificamente
os eventos mentais, eu não posso estudá-los. Não
nega, mas nega a possibilidade do estudo científico. Por isso que
a ênfase é no "como", no método. E este
é o behaviorismo que cresce e se difunde, e praticamente é
o que ganha mais espaço dentro da psicologia.
Bom, o criador disso foi Watson e o Skinner até 1945 foi um behaviorista
metodológico. A partir de 1945, Skinner rompe com o behaviorismo
metodológico e faz uma proposta do behaviorismo que vem a ser chamado
de radical, que apesar de ser chamado de radical, é menos radical
do que o metodológico.
É graças ao behaviorismo metodológico que aparecem
todas essas pesquisas com animais. Dado que eu parta do pressuposto de
que se a mente existe, e não é passível de estudo,
eu posso estudar no animal aquilo que é observado e lidar com esses
dados cientificamente. Eu vou fazer inferências a respeito do ser
humano, a partir das coisas que foram objetivamente ou diretamente observadas.
Existe um terceiro tipo - o behaviorismo analítico. É também
chamado de behaviorismo linguístico. Behaviorismo este que nunca
foi implementado. Ele foi definido e proposto, mas está parcialmente
disponível, e se alguém quiser desenvolver, desenvolve se
achar que vale a pena. Mas, de qualquer forma, esse behaviorismo analítico
e linguístico, sofre uma forte influência de filósofos,
um dos quais WITTIGENSTEIN.
O behaviorismo analítico eu só vou definir, porque não
tem pesquisas que o desenvolveram. Basicamente, o behaviorismo analítico/linguístico
propõe o seguinte: os enunciados a respeito da mente tornam-se,
quando analisados, em enunciados à respeito de comportamento. Então,
esta proposta foge de uma preocupação sobre o que estudar.
Eu vou estudar eventos mentais, e não mente; se existem ou não.
Também não importa o como se estuda cientificamente. Se
estudo filosoficamente, se estudo religiosamente. Ele não está
preocupado com isso. Então, ele desloca a preocupação
desses dois anteriores e faz uma outra proposta. O objeto de preocupação
do behaviorismo analítico é o enunciado.
O enunciado nada mais é que uma afirmação verbal.
Os enunciados a respeito de mente (ou as afirmações verbais
a respeito de mente), as frases, as sentenças. Aquilo que foi dito
a respeito de mente. Portanto, ele está estudando o que nesta proposta?
Ele está voltando sua preocupação para o comportamento
do estudioso e quem faz enunciado a respeito de mente é um Freud,
um Rogers, um Skinner, um Jung. O que um indivíduo fala, o que
o estudioso fala do indivíduo, tornam-se quando analisados em enunciados
a respeito de comportamento.
Na verdade, a proposta desse behaviorismo (linguístico/ analítico)
é deixar de estudar o grande conflito mente-corpo, esse dualismo.
Fugir também do método e propôr uma análise
da contribuição dos estudiosos. Então, seria mais
ou menos o seguinte: exemplo - Se nós fôssemos pegar Freud
ao elaborar os conceitos de id, ego e superego, ele partiu de que? - Ele
partiu da interação dele com os clientes, e mais de sua
própria problemática pessoal, das influências da cultura
da época, da própria cultura pessoal, etc...
Para você entender esses conceitos, que são enunciados a
respeito, ao analisar todos esses conceitos, teria que analisar tudo o
que a eles está relacionado. Assim, a grande passagem sai de uma
área de preocupação e parte para analisar a produção
dos autores que estão construindo a psicologia. Peguei o exemplo
de Freud que é mais evidente, mas poderia ter sido outro.
Essa divisão em três tipos é retomada agora na década
de 80 por dois autores: HARZEM e MILES. Em 1978 eles retomam o behaviorismo
analítico e fazem um discussão mais aprofundada de seu potencial,
mas, não foi longe ainda, pois é uma proposta conceitual,
de pensar a respeito do problema. Não chegou no nível ainda
de se transformar numa proposta de atuação.
No behaviorismo radical que é a proposta de Skinner, na verdade,
a essência é a seguinte: ele coloca os pontos básicos
do behaviorismo radical. Skinner tem a seguinte trajetória. Ele
é um pesquisador, aí trabalha com ratos depois com pombos
e aí ele deixa de fazer pesquisa e vira um filósofo ou um
teórico a respeito da ciência do comportamento. Por isso
que afirma que é um behaviorista.
Os livros de Skinner a partir de então, são livros alguns
bastante especulativos como "WALDEN II", outros são propostas
teóricas como "O MITO DA LIBERDADE". Então, não
é mais pesquisador, nunca foi clínico e se ele se aproximou
um pouco mais da prática foi na área educacional: máquinas
de ensinar e instrução programada. Mas ele faz uma colocação
teórica, que diz o seguinte: basicamente não dá para
negar que debaixo da pele existe um universo. Então, ele fala em
um mundo, em comportamentos expressos, erguer a mão, por exemplo:
e ele fala em comportamentos encobertos, tudo aquilo que está debaixo
da pele: pensamento, fantasias, delírios, alucinações,
paixão, ódio, etc... Então, neste sentido, ele diz
o seguinte: o mundo debaixo da pele é constituído por comportamentos
e segue as mesmas leis, os mesmos princípios que os comportamentos
expressos (colocação teórica).
É essa a primeira colocação do behaviorismo radical:
o mundo interno e o mundo externo obedecem às mesmas leis. A segunda
colocação é a seguinte: como é que você
vai ter acesso ao mundo interno? Então descarta posição
do behaviorismo metodológico (que você precisa ter dois ou
mais observadores externos) e restabelece a introspecção
como método de estudo. Você só pode ter acesso ao
interno, se você que tem esse mundo, observa-o de alguma forma.
Então, basicamente é o seguinte: na noite passada eu sonhei
e vou contar para vocês o meu sonho. Eu estou sendo observador do
meu mundo interno. A questão, e isto é válido para
a proposta do behaviorismo radical, é que existe esse mundo encoberto,
esse mundo interno. A diferença é que, enquanto que para
o estruturalismo de Titchener que é uma proposta dualista (mente
e corpo), você ao fazer a introspecção vai observar
os conteúdos mentais, para Skinner, você vai observar o próprio
organismo se comportando.
Assim, ele mantém aqui o monismo. Não existiria uma outra
entidade chamada mental, na linguagem psicológica; não existiria
uma outra entidade chamada espiritual, numa linguagem religiosa. O que
você observa introspectivamente é o comportamento do seu
próprio organismo, ou seja, é o próprio organismo.
Então, ele questiona o que é introspeccionado, e portanto,
conhecido.
Neste sentido, o behaviorismo radical faz uma recuperação
daquilo que Watson havia quebrado em 1913 e que o behaviorismo metodológico
manteve quebrado durante todos esses anos.
O behaviorismo metodológico é uma excelente proposta para
quem está basicamente interessado em pesquisa, e pesquisa seguindo
o modelo de ciência natural, porque aí você vai trabalhar
o comportamento observado, manipular variáveis controláveis
e assim por diante. Mas, o metodológico é um behaviorismo,
por exemplo, que não se aplica quando você está interessado
numa atuação clínica ou mesmo numa atuação
educacional. Ele tem limites para isso.
Já o behaviorismo radical permite que você entre na investigação.
É claro que o behaviorismo radical tem outras coisas, mas, só
para vocês se localizarem proponho o livro: "Sobre o Behaviorismo",
do Skinner.
A próxima etapa agora é discutir o conceito de estímulo
(S) e resposta (R). Classicamente, a gente começa novamente lá
no Watson. Ele recebeu a influência do positivismo de Comte, do
mecanismo de Newton, e aí que vem essa idéia: basta um S
para provocar uma R; um fato pode ser explicado por um único S
que ele é necessário e suficiente. Watson recebeu a influência
dos fisiologistas através do estudo de reflexo que vem na psicologia
S-R, que é um conceito da fisiologia. Ele recebeu a influência
de PAVLOV que descreveu o reflexo condicionado. Nem tudo pode ser explicado
por S-R. Existem Ss que são associados devido aos Ss condicionados.
Além de PAVLOV, DARWIN influenciou Watson com a teoria da evolução.
Se você não aceitar essa teoria você não pode
estudar animal para compreender humano, porque há necessidade de
um pressuposto da continuidade. Todas essas influências marcaram
Watson a propôr em 1913 o que é o behaviorismo.
De lá para cá, se manteve isso: S provoca uma R. Depois,
isso foi expandido para: o S provoca R, e da R aparece outro S que vai
ter uma função reforçadora ou aversiva, e daí
se sai para a extinção, punição, etc... Ou
seja, comportamento reflexo ou pavloviano e comportamento operante ou
Skinneriano.
Esta noção foi substituída, mas hoje em dia muitos
consideram até essa fase aqui, e a gente confunde a R com o comportamento,
como se fossem coisas equivalentes. Dentro da linguagem comum, a gente
continua misturando os dois termos. Vamos fazer então, uma pausa
para fazer uma distinção entre R e comportamento.
Resposta é uma coisa, é um ato do organismo. Por ex.: chorar
é R, por enquanto. Nesse sentido, R é uma ação
(num sentido bem amplo) do organismo. Como tal, a R não é
objeto de estudo da psicologia. Ela é um objeto de estudo da biologia.
Da mesma forma, o estímulo como uma alteração no
ambiente, não é tipicamente objeto de estudo da psicologia.
Ele é um objeto de estudo da física. O que seria comportamento?
Comportamento não é nem organismo e nem ambiente. Então,
eu não vou falar nem S e nem R. Vou falar em comportamento que,
para efeitos de estudo, é arbitrariamente dividido em frações
menores chamadas Respostas.
É arbitrário por exemplo: eu poderia ter no meu consultório
o indivíduo que diz que vai matar a mãe e diz que vai comprar
uma arma para matar a mãe. Enquanto ele não compra essa
arma e não mata a mãe, ele já começa a expressar
comportamentos de agressão à mãe. Então ele
xinga a mãe, ele empurra a mãe quando ela chega perto ("Suma
daqui"), bate a porta na cara da mãe etc... Eu posso analisar
esse indivíduo pegando a R de agressão à mãe.
Então eu estou pegando o organismo e arbitrariamente para definir,
eu vou estudar o delírio dele; como posso (veja como é arbitrário)
querer estudar o delírio dele mais a interação dele
com a mãe e o que o leva a eleger no delírio, a mãe.
Ele poderia agredir o pai, o irmão. O indivíduo pode ter
um delírio a respeito de um santo na igreja. Eu posso analisar
a interação dele com a igreja, as influências na vida
dele que faz com que no delírio ele tenha isso como conteúdo.
Esse é um exemplo de como a divisão é arbitrária.
Bom, de um lado eu tenho o organismo e por outro lado eu tenho o ambiente
que, para efeito de estudo, arbitrariamente eu divido em unidades menores
que eu chamo de Ss. Assim, vamos chegar à noção de
comportamento. Comportamento não é nem S e nem R. Comportamento
não é coisa alguma. A primeira coisa a ser dita é
que comportamento é um conceito. Que tipo de conceito? Um conceito
relacional. Relaciona o quê com quê? Comportamento é
um conceito relacional que relaciona ambiente com organismo. E a influência
é recíproca. Portanto, se eu perguntar para vocês
nesse diagrama S->R, ambiente e organismo, onde está o conceito
de comportamento? Ele está na seta. Não é nem ambiente
nem organismo. É a relação dos dois. Então,
nesse sentido, comportamento passou a ser um conceito relacional.
Mas existe também uma complicação. Por exemplo:
como eu explicaria segundo esse modelo a seguinte situação:
(Pergunta à aluna): - Como é seu nome?
Resposta: - Jaqueline.
Por que ela respondeu Jaqueline? Porque eu perguntei. Você tem
aqui um evento externo de eu perguntar para ela (Qual é o seu nome?).
Se eu mesmo, antes de nós nos conhecermos, tivesse feito a mesma
pergunta para ela às 3 horas da manhã na rua 13 de maio:
Qual é o seu nome? Tanto ela poderia dizer: - Jaqueline às
suas ordens! Como também sair correndo, disparar seu coração,
ter uma descarga de adrenalina, gritar por socorro etc,... Portanto, ela
não respondeu "Jaqueline" à minha pergunta porque
eu perguntei. Ela respondeu porque:
01- eu perguntei;
02- pela situação. Ela de certa forma aprendeu a respeitar
a autoridade. Ela poderia dizer: Não interessa! Ela poderia ter
dito isso por outros motivos. Existe também uma história
cultural nela que é de responder com educação quando
ela é solicitada em certas circunstâncias. Existe um fato,
que ela se chama Jaqueline (poderia até ter mentido - é
outro componente). Poderia até ficar quieta. De qualquer forma,
existiria uma R de ficar quieta. Mas porque ela ficaria quieta?
Vamos analisar a reação dela de ficar quieta. Porque? Ela
é muda? (é uma razão); ela não fala com estranhos?;
ela odeia o nome dela?; ela é esquizofrênica que não
responde?; ela só fala quando quer?, etc... O silêncio seria
uma R e teria determinantes.
Agora vem a noção de ambiente e organismo. Parte do que
ocorreu aqui com a Jaqueline foi provocado pelo ambiente externo. (- Qual
o seu nome?). E parte ocorreu pelo mundo interno (-Jaqueline). Então,
nós não podemos mais dizer que ambiente é aquilo
que está fora da pele. O ambiente tem que incluir também
o que está debaixo da pele. Então, os meus valores, o que
eu penso e o que eu sinto também funcionam como S. Na hora que
um elemento desencadeador, que pode ser externo (Qual é o seu nome?)
ou poderia ser interno: de repente ela se levanta e sai. Porque ela saiu?
Eu não mandei ela ir embora, você não mandou, ninguém
chamou. Ah! São dez horas e eu me lembrei que tenho que dar um
telefonema. Ela está respondendo não a um evento externo,
mas a um evento que ela interiorizou e fez que às dez horas ela
ligue para casa para saber se o feijão foi colocado na panela.
É uma ação do organismo. Pela definição
de Skinner, é um comportamento, isto é, o organismo se comportando,
como o organismo pensando. Teríamos nós uma linguagem mais
cotidiana: ela lembrou-se de uma obrigação (perfeccionista,
responsável, quer garantir sair na hora). Então o evento
interno a desperta e ela sai. Agora, o fato dela sair vira um evento externo
para nós. Onde foi? Que foi fazer? Que pretende? Vai desencadear
diferentes coisas. Quem sabe, ela é uma pessoa preocupada com o
almoço. Como todas as vezes, ela telefona para garantir que o almoço
saia. Eu posso dizer que ela está cheia da aula, outras que ela
foi ver a nota que não entregaram. Quer dizer, cada um de nós
age em função de outras informações. Neste
sentido, nós chegamos à seguinte situação:
não dá para falarmos em ambiente e organismo. São
termos muito genéricos e pouco funcionais. Então, a gente
fala em eventos com função de S e eventos com função
de R, e o comportamento então, é um conceito relacional
que explícita a relação entre as funções.
E agora eu digo assim: eu preciso telefonar para casa para avisar que
está na hora de pôr o feijão no fogo (foi uma R).
Isso tem função de R e imediatamente este mesmo evento tem
uma função de S porque induz a R seguinte e aí você
tem um fluxo de comportamento.
O comportamento então é unitário, um fluxo contínuo,
indivisível, que no entanto, nós, para efeito de compreensão
o deformamos, tornando-o em pedaços arbitrariamente quebrados.
Quando o terapeuta diz assim: eu quero acabar com a R de chupar o dedo
de uma criança (Não sei se ele pode fazer isso!), ele está
dividindo comportamento em unidade (chupar o dedo) e pode estar até
certo, pode ser eficiente. Pode ser necessário. Se ele está
comendo o dedo, vai ficar sem o dedo, talvez seja urgente. Ou você
pode pegar uma unidade maior: que aspectos afetivos levam-no a se auto-degolar?
O tamanho da unidade depende da proposta teórica, ou da ideologia
dele, e assim por diante.
Vocês estão vendo a série: "O primo Basílio"?
Vou resumir a história:
Quando a Luiza começa a definhar e ela vai definhando cada vez
mais, eu pergunto: ela está tendo um comportamento ou uma resposta?
Vamos analisar: de um lado nós podemos olhar assim: do ponto de
vista médico, o que o médico poderia fazer por ela? Ele
poderia fazer: exame de sangue, de fezes, de urina, eletro, batimentos
cardíacos, dar vitaminas, sugerir boa alimentação,
sono etc... O máximo que poderia fazer por ela era trabalhar com
respostas e não é função do psicólogo.
É claro que se estiver na mesa uma pessoa deprimida, angustiada,
ansiosa, mal, desamparada. Em resumo, se nós fôssemos atender
a essa pessoa, onde apareceria o comportamento? Vamos observar (desculpe
reduzir a Luiza a organismo):
Por que ela está definhando? Ela perdeu alguma coisa? Perdeu:
o Basílio, perdeu as cartas, status, tranqüilidade, está
com medo da empregada, com culpa, rejeitada. Ela está questionando
os valores dela? Em relação ao Jorge, ela está sentindo
que o Jorge a ama? Ama. Para aumentar a culpa sente-se amada pelo Jorge.
Os valores dela, a pressão ("mulher que trai tem que morrer"),
os valores da cultura... Tudo isso que ocorre nela são elementos
que estão nela e fora dela. É da interação
disto tudo que produz o estado de se sentir cada vez mais se definhando.
Como ela não foi a uma terapia, mas de qualquer maneira, um terapeuta
teria que fazer uma relação dessas coisas e relacionar o
que ela pensa e sente com o que ocorreu. Portanto o definhar é
o sintoma, o definhar é uma R que tem componentes biológicos
(perda de peso, alterações no metabolismo etc...) e tem
componentes emocionais também: perda de motivação
pela vida, depressão, baixa auto-estima e tem componentes psicológicos
também.
Agora, pode-se fazer uma análise puramente médica. Ela
pode comer o que quiser, ela pode tomar vitamina e se conseguirmos fazer
com que ela coma e tome vitamina. Porque psicologicamente você não
trabalhou os aspectos que estão se expressando? Na verdade, o definhar
dela é uma expressão, é um sintoma do seu real problema.
Se nós fôssemos analisar então, qual seria o comportamento
dela? Não é comer pouco, é comer pouco relacionado
ao fato de que ela se sente com culpa, com medo, desvalorizada, rejeitada,
e a relação dessas duas coisas, o que ela pensa e sente,
e o que ela acaba fazendo com o organismo dela, com o que está
acontecendo. Mas obviamente, é esse definhamento que vai produzir
a morte, e que isto tem já (é claro que Eça de Queiroz
não sabia disso), evidências em laboratório. Não
tinha na época, são pesquisas posteriores.
São pesquisas sobre situação de tensão. Se
você tem uma ameaça, no caso de um animal seria um S (sinal)
por exemplo: luz que após algum tempo vem uma situação
aversiva (choque elétrico). Quando a empregada diz: vou mostrar
as cartas se você não me der o dinheiro, se não me
der as coisas, você tem uma ameaça e a estimulação
aversiva vem inevitavelmente. Você fica em estado de ansiedade.
Se nesse período de ansiedade você puder emitir uma R que
elimine a situação aversiva (o que eu estou chamando corretamente
de R poderia ser comportamento).
Luz! Em 10 segundos vem um choque. Porém, se eu pressionar a barra
a luz se apaga e o choque não vem. Isso é R ou comportamento?
(Pergunta de novo). O animal olha para a luz. Oh! Luz outra vez, desgraçada,
eu sei o que você significa para mim. É um choque, mas eu
sei como eliminá-lo - pressionando a barra. Ela está relacionando
alguma coisa com alguma coisa? Está, é comportamento. Agora,
se um fisiologista perguntasse assim: será que o músculo
de um rato que olha para a luz ameaçadora, vê o choque elétrico
que vem, vai correndo pressionar a barra, será que esse músculo
é mais tenso ou mais relaxado? Será que nesse músculo
existe mais niozina ou menos niozina? As questões de investigação
desse fisiologista é dirigida ao estudo do comportamento do rato
ou da R do rato? Da R do rato, pois ele está interessado no músculo,
extensão do movimento.
Quando a empregada chega e diz assim: que blusa bonita! Eu gostaria de
tê-la se a senhora não se importasse. Ela está apresentando
um sinal de que há algo pior. Ou a blusa ou as cartas para o Jorge.
Aí, você me dar a blusa é a R, e a carta não
vai para o Jorge. Reduziu a ansiedade, só que no caso do rato ele
sabe o seguinte: pressiono a barra e estou salvo do choque. Mas no caso
da Luiza, ela tem certeza que isso não acaba nunca. Então,
é o comportamento que a Luiza emite, e a R (de arrancar a blusa)
reduz a ansiedade, porém só temporariamente. É aí
que tem o mundo encoberto que Watson diria, tirou a blusa e reduziu a
ansiedade, e o Skinner diria, calma lá, é o mundo interno:
o mundo interno que depois da blusa e depois a saia vem o resto, não
tem fim.
Quando a pessoa entra no esquema de ansiedade e não a reduz duradouramente,
ela entra num estado chamado de desamparo. O desamparo se caracteriza
pelo abandono. (-Não tem jeito mesmo). E esse estado tem componentes
emocionais, afetivos, cognitivos, intelectuais e orgânicos (morte).
Portanto, Eça de Queiroz sem conhecer psicologia previu certo o
que ia acontecer.
----- Síntese -----
Behaviorismo não tem uma única definição
e historicamente o behaviorismo tem evoluido na sua conceituação
e evoluindo porque o behaviorismo nasceu dentro do laboratório,
e foi evoluindo para situações de vida real. Quando ele
foi vindo do laboratório para a vida real, foi se confrontando
com problemas cada vez mais complexos, dos quais ele tem que dar conta.
Das duas uma: ou ele evoluia ou ele não tinha nada a oferecer.
Então, o behaviorismo é um movimento em desenvolvimento.
Portanto, definir behaviorismo hoje é muito difícil. Fala-se
que ele tem uma gama, uma família de significados e não
significados múltiplos. Esse é o primeiro ponto.
O segundo ponto é compatível com o primeiro: a própria
noção da relação S - R desaparece e é
substituída por um conceito mais amplo, o de comportamento, que
é um conceito e não uma coisa, um conceito operacional que
relaciona ambiente e organismo. E entendam que o conceito de ambiente
sai de fora do organismo e invade também o organismo. Para dar
conta disso, nós abandonamos a noção de organismo
e ambiente, S e R, e falamos em função dos eventos função
S e função R. Com este arsenal em mãos, nós
podemos agora ter um grande material mais rico à disposição
daqueles que queiram fazer investigações práticas.
Eu queria comentar com vocês algumas questões mais de natureza
prática. Uma rápida pincelada histórica a respeito
de como é essa área de atuação que é
chamada de modificação de comportamento (mais na área
educacional) ou terapia comportamental (área clínica). Bom,
não há um consenso de decisões. Mas há o fato
de que a análise experimental do comportamento começa no
laboratório.
Até agora eu falei em behaviorismo e não falei em análise
experimental do comportamento. Normalmente, nos cursos de psicologia tem
uma disciplina chamada "Introdução à Análise
Experimental do Comportamento", e havia muita confusão, como
ainda hoje, nessa disciplina como sendo o behaviorismo.
Para uma melhor clareza, vejamos. A análise experimental do comportamento
não é o behaviorismo que eu já defendi. Não
é uma área da psicologia, como por exemplo, teoria da personalidade,
psicologia do desenvolvimento, psicologia social, que seriam áreas.
A análise experimental não é uma área. O que
é então? É um modo de estudar o objeto da psicologia.
Então, se vocês tiverem que estudar masoquismo, eu poderia
estudá-lo usando o método da análise experimental
do comportamento. Podemos estudar cooperação social - seria
meu objeto de interesse através do método da análise
experimental do comportamento. Podemos estudar percepção
usando esse método que consiste basicamente em usar animais em
laboratório e fazer pesquisas controladas (Nem sempre é
muito de nosso interesse).
Raramente com humanos é possível fazer análise experimental
do comportamento porque o experimental fica prejudicado quando você
trabalha com humanos. O que você pode fazer na melhor das hipóteses
é um análise de comportamento. Estou dizendo isso para chegar
a um ponto. A partir de conhecimentos da análise experimental do
comportamento, introduziram-se coisas do tipo: conceitos de reforçamento,
extinção, punição, esses conceitos todos.
A partir deste corpo de conceitos, surgiram os procedimentos de tratamento,
tanto na prática clínica como na prática educacional.
É claro que você poderia perguntar: do animal eu passo para
o humano? Veja bem, aqui é uma questão delicada. Com o animal,
você pode na verdade, concluir a respeito de alguns conceitos básicos.
Agora, a transposição para o humano é um passo gigantesco
que vai depender da criatividade, da sensibilidade e da competência
do profissional que está trabalhando.
Eu posso entrar numa escola e querer melhorar a performance dos alunos
dando fichas por seus melhores desempenhos. Hoje só um profissional
débil mental faria isso. Há outras coisas muito mais relevantes
para serem analisados no contexto educacional do que dar ficha para um
aluno que precisa melhorar a nota, e isso, é claro, tem problemas
ideológicos, políticos por detrás de uma atuação.
A mesma coisa vale para a clínica. Agora, só para vocês
terem uma idéia, é graças também a estudos
com animais que existem críticas sérias ao uso dos próprios
princípios nua e cruamente, e a esse uso nú e crú
para a aplicação com humanos. Por exemplo, os estudos de
LORENS sobre imprinting questionam a eficácia do reforçamento,
extinção e punição para influenciar o vínculo.
A gente nota crianças que mesmo sendo punidas pelos seus pais,
e que, digamos assim, por reforçamento e extinção
tenderiam a evitar vínculos muito fortes com seus pais punitivos,
não se afastam. Mesmo que você busque explicações
como: mas então, o pai além de tudo deve também estar
reforçando (que é uma maneira de você tentar salvar
a teoria). Você vai observar isso também, observar reforçamento.
Então, como se explicaria isso? Você vai ter que cair em
outras interpretações, outras possíveis explicações,
e o imprinting mostra isso.
Não existe necessariamente uma única explicação
lógica, e nem sempre os princípios de reforçamento
e punição dão conta do fenômeno que você
observa. Neste sentido, não é uma proposta behaviorista,
mas uma proposta riquíssima em termos de movimento, estes trabalhos
de LORENS a respeito de laços afetivos de informação.
LORENS tem uma forte inclinação afetiva. Então, ele
é um psicólogo que faz pesquisas e tem uma forte sensibilidade
clínica. Neste sentido, ele não faz uma proposta só
teórica, mas faz uma análise de como ocorrem os vínculos
humanos.
Bom, agora historicamente eu estava dizendo o que aconteceu. O pessoal
que trabalhava no laboratório aprendeu que você faz um programa
de procedimentos. Põe um animal dentro da gaiola, põe de
novo e depois verifica a partir daquele procedimento, com variáveis
controladas, o que ocorreu com o animal. Isso tem uma fortíssima
influência do behaviorismo metodológico: - Bem, se existe
ou não, eu não sei, mas que não dá para estudar
nele do ponto de vista da ciência natural. Portanto, eu ponho o
rato, o pombo, o macaco na gaiola e não vou me preocupar com a
mente deles.
Até aí tudo bem. O que devo entender é que aquilo
é um estudo análogo, simplificado, e que atende a alguns
aspectos da aprendizagem. Só que é esse pessoal que pensa
desta forma que começa a fazer a aplicação.
A história de vida do indivíduo é muito marcante.
Quando ele sai do laboratório e vai para a clínica, essa
passagem não é uma coisa automática. Eu então
começo a trabalhar com o mundo interno do indivíduo, e os
primeiros estudos que você vê como aplicação,
ou pode ser com crianças deficientes mentais, geralmente deficientes
profundas (autistas) ou com pacientes psiquiátricos.
Interessante aí também, que a analogia não é
ainda colocada em xeque. Porque, se você pega um deficiente mental
profundo, o quanto ele tem no mundo interno é muito limitado, o
verbal dele é pobre. No mínimo é pobre enquanto expressão.
Então, a analogia que sai do laboratório não é
colocada em questão tão fortemente. Você trabalha
com pacientes psiquiátricos crônicos que não falam
a anos, que tem um mínimo de interação, e é
o mesmo problema. O mundo interno não emerge com aquela força
que questiona o modelo teórico e prático.
(Observação de uma aluna): - Mas assim mesmo, às
vezes quando se trabalha com pacientes profundos, mas que continuam vivendo
em família, além das implicações que você
pode até fazer por uma analogia quase direta com o que foi pesquisado
no laboratório, eu acho que existem tantas outras contigências
aí no ambiente em que ele está inserido. A família,
a relação...
(Resposta Hélio): - Exatamente! Esses primeiros estudos iniciais
eram feitos em Instituições. Então, não havia
contato dessas pessoas, desses clientes com o mundo de fora.
Então, o trabalho continuou. Eu me lembro de um trabalho que nós
fizemos replicando um estudo de deficientes mentais. O objetivo era ver
a criança normal, o que ocorria se usasse com ela um procedimento
de reforçamento de intervalo fixo. No animal, o padrão seria
este: o animal discrimina que logo depois do reforço não
haverá reforço, e quando chega o tempo do próximo
reforço ele aumenta a freqüência e ganha o reforço.
Foi isso que se obteve com com animais. Com deficientes profundos, isso
se obteve. Com deficientes profundos isso se obteve, e com doentes psiquiátricos
crônicos essa curva também se obteve. Quando nós fomos
fazer com crianças normais, aconteceu então que a curva
era totalmente irregular, não havia obtenção do padrão.
Aí, observando através do espelho como as crianças
trabalhavam, ficou claro qual era o sistema. Havia uma alavanca que a
criança deveria mexer e o reforço era dado para ela (brinquedo).
Só que quando a criança começou a trabalhar com a
alavanca, então o que se observou: o deficiente mental vai mexendo
a alavanca, comia, parava, passava um tempo, mexia na alavanca, reforço,
... Então dava o padrão. Com a criança normal (veja
bem, outra vez o conceito de mundo interno), ela transformava a situação
num bombardeiro aéreo. Ela era piloto e estava com uma metralhadora
(bam-bam-bam). Então a gente via no espelho "bam-bam-bam",
pausa, "bam-bam-bam", como se estivesse no meio de uma batalha
infernal. Ela comia um docinho, guardava e continuava a luta. Quer dizer,
na verdade, o que era reforçado por ela, o significado era matar.
Na verdade, ela poderia até parar, mas depois de derrubar o indivíduo.
Então, o que se verificou na verdade, não é que
o princípio não pudesse se aplicar, mas o princípio
tem que ser atualizado e assim por diante. Uma importante crítica
que se faz a estas propostas, é a de que não se faz essa
atualização. Como disse a aluna), não dá para
ignorar a família, o contexto. Hoje em dia, nós podemos
dizer que na área de aprendizagem, a modificação
do comportamento tem muito a dizer. Mas na área de relacionamento
humano, na área de proposta terapêutica, ela tem muito pouca
coisa a dizer. (só os fanáticos discordam disto).
Então por exemplo, em terapia infantil, hoje se você pegar
um terapeuta comportamental lúcido, ele vai dizer assim: eu sei
fazer orientação de pais, para isso estou preparado. Mas
terapia com criança eu não sei fazer. E na verdade, já
se nota um forte movimento entre terapeutas que trabalham com crianças.
Para começo de conversa, a gente nem chama mais de terapia comportamental.
Técnica significa para mim o seguinte: você tem um problema,
pode ser uma criança que vai mal na escola, pode ser uma pessoa
que tenha fobia. Você pode aplicar procedimentos para alterar o
chupar o dedo, alterar a fobia e assim por diante. Isto não é
fazer terapia. Isto é mudar uma resposta. E seria o análogo
de você pegar uma criança que vai mal na escola e você
pega essa criança e faz um trabalho tipo clínico (até
dentro da escola - com aquela criança que vai mal, pode ser até
que ela melhore a nota), mas se você não faz uma análise
crítica do sistema escolar, do trabalho do professor, da escola,
você não analisou o problema.
Em 20 anos houve uma aplicação repetida de procedimentos
(passou o 1o. xerox). KUNTEL pegou o No. 1 da revista JABA em 1968 e pegou
o No. 1 da revista de 1987, 20 anos depois. (Hélio leu o xerox
No. 1). Os próprios editores da revista aceitaram isso como representativo.
Esse autor (KUNTEL) ao comparar o 1o. número da revista de 68
e o 1o. da revista de 87, mostra que não há uma evolução
importante. Por acaso, a linha A é o 1o. e a B é o 2o. O
que vocês podem esperar a respeito do futuro nessa direção?
Não há muito o que esperar.
Então, o que nós temos feito é o seguinte: se você
disser assim: Oh! Que bom cientista sou eu, meu sonho é ser behaviorista
metodológico, mas como eu não sou tão restrito e
não quero ficar trabalhando com animais, quero trabalhar com humanos.
Você pode fazer pesquisa e tentar publicar que representa a produção
aplicada à revista que tem 20 anos e é representativa.
Agora, se você quiser trabalhar fora desse esquema restrito, então
você vai ter que criar na verdade uma proposta. O que na verdade
nós estamos fazendo, é não abandonar a conceituação
básica e nem abandonar alguns pressupostos básicos, como
por exemplo a observação sistamática. Uma boa observação
é uma qualidade, seja eu psicanalista, seja eu comportamentalista.
Fala-se: o analista faz interpretação. Na verdade, o analista
faz interpretação (quando ele é bom analista) a partir
de observação. Não importa que seja observação
de relatos verbais. O analista de categoria nunca vai ver o cliente e
primeiro diz: - Conte-me seu primeiro sonho. Ele não vai fazer
isso: vai ouvir, ele ouve um sonho, dois etc.... Ele pode levantar uma
hipótese a respeito de um sonho, mas ele para fazer uma interpretação,
acumula dados, ele observa longitudinalmente esse paciente para daí
fazer uma interpretação. Na verdade, a interpretação
de um analista num consultório, não mais é do que
uma situação de não laboratório, com menos
controle, o mesmo que faz um cientista, de observar sistematicamente um
fenômeno para daí concluir.
Interessantemente, um pesquisador básico que trabalhou com pombos
como Skinner, FESTER, começou a comentar num artigo (para azar
dele e nosso): "embora tivesse ocorrido as curvas com os pombos,
apesar disso eu noto que os meus pombos têm características
muito particulares". Quero dizer o seguinte: o jeito de pegar o pombo,
de pô-lo na gaiola, e até admite ele, fez algumas adaptações
no equipamento para atender ao "temperamento" dos pombos. Ele
já percebe que até o pombo tem um nível pombal, a
personalidade que precisa ser respeitada. E o autor comenta também
porque na pesquisa você começa com 10 sujeitos e aí
você apresenta o resultado: sujeitos utilizados = 6. Mas você
não comecou com 10?. É, um morreu e 3 não se adaptaram
ao procedimento. São os esquizofrênicos, os revoltados, os
críticos no mundo das aves. Quer dizer, na verdade, nós
tiramos esse daí e publicamos aqueles. Agora, esta prática
é comum, e aí você obtém curvas e FESTER diz
isso: "os meus animais tinham particularidades as quais eu devia
estar atento para conduzir bem os meus experimentos".
Se nós quisermos na verdade trabalhar no nível clínico
de uma forma mais produtiva, nós temos que buscar em outras abordagens,
algumas idéias. Não é abandonar o modelo de análise.
Observar corretamente é uma prática comum para qualquer
um. Dizem assim: vocês da terapia comportamental não vão
à essência do fenômeno, vocês não vão
na verdadeira causa. Pela própria posição nossa,
isso seria incoerência porque só se você descobre as
causas, é que você pode esclarecer o fenômeno. Então,
se eu for eliminar o "chupar o dedo" sem analisar o que determina
isso, é óbvio que haverá uma regressão do
comportamento, haverá um reaparecimento do comportamento.
Uma técnica poderosa pode o mudar o comportamento, mas não
muda o indivíduo. Então, é necessário que
você tenha claro em que nível você está trabalhando.
Numa emergência você pode até ter que fazer um trabalho
que eu chamo de "pronto-socorro" e usar uma técnica poderosa.
Uma criança por exemplo, está perdendo o ano pela segunda
vez, e se recusa a ir à escola, tem uma fobia por escola. Pode
ser que você avaliando a situação, ache adequado usar
um procedimento de feeding, ou alguém acompanha essa criança
até a sala de aula e vai gradualmente se afastando da sala para
que a criança vença essa fobia e passe a frequentar a aula.
Mas isso é uma situação que eu chamo de tecnológica,
possivelmente necessária, mas não é terapia. Resta
esclarecer porque a criança de 7 ou 8 anos está com fobia
escolar. Como é o vínculo dela com a mãe, com o pai,
com a vida? tem uma infinidade de problemas aí a serem investigados
que eu chamaria de processo de terapia. Você enquanto tecnológico
é comportamentalista. Enquanto terapeuta você vira um analista,
bota a criança no divã e vai analisar? Nada disso. Você
usa o seu próprio referencial teórico, mas para chegar lá,
você precisa ampliar.
Vou dar um exemplo: uma colega fez um trabalho. Tem aqui o relato para
vocês terem uma idéia da dificuldade clínica. É
um menino de 5 anos, superinteligente que vocês vão notar
pela história. Essas anotações (do relato) vão
oferecer ao terapeuta, dados. O relato foi escrito enquanto a criança
brincava com massinha. O terapeuta não sabia ainda o que estava
ocorrendo com essa criança. (Hélio leu o relato - xerox
No.2). Essa história (relato da história que a criança
fez com massinha) continua por mais páginas.
Bem, pôr em extinção o quê? Essa criança
foi encaminhada e agora vou contar a história dela. Trata-se de
um casal, o homem e a mulher (cobra). O homem (que está fugindo)
é casado e tem um caso com essa mulher que é solteira e
aparentemente se amam. O meu cliente é esse homem. É um
relacionamento longo. Ambos são médicos e ela fica grávida
3 vezes e abortou. Na quarta, ela resolveu ter o filho. Ele entra em pânico
e não aceita. (o filho é a criança de 5 anos). Eles
continuam se relacionando e a mulher tem o filho. O pai se recusa a ver
o filho e diz que não é dele. Não assume, não
quer saber e nunca foi ver esse filho. Então, essa mãe cria
sozinha a criança. Aí, a criança começa, induzida
ou não pela mãe, a perguntar onde está o pai. Ela
(mãe) vai dando respostas como: o pai mora lá, mas não
pode vê-lo. No fundo, o pai dele é o avô (pai dela).
Vai chegando a um ponto que ela não cosegue mais lidar com o questionamento
do filho, porque na verdade é uma relação ambivalente.
Por outro lado, ela quer que o filho continue questionando para cobrar
o pai pois eles continuam se relacionando. Quando é que você
vai assumir o filho?
Então, leva a supôr que ela induz a criança a se
preocupar com o pai. Mas por outro lado, como o pai não quer assumir
essa criança, a criança está criando para ela um
beco sem saída: quem é meu pai? (eles trabalham no mesmo
hospital, e nem dá para esconder muito). Então vocês
vejam agora, a elaboração, a ansiedade da criança
no 1o. parágrafo. (ver no texto). Podemos fazer uma interpretação.
É claro que se você analisar essa história sem esses
dados e outros, a história fica incompreensível.
Já que é difícil chegar na forma de filho e de homem,
porque não chegar na forma de uma cobrinha (ele se transforma em
cobra). Como cobra ele pode subir no navio, no banco, ele pode se disfarçar
como corda. Interessantemente ele encontra um lugar para a mãe
dele dentro do barco. É uma outra expectativa. E a cobrinha fica
lá no cantinho da mãe dela.
Aparentemente para o casal, o filho não sabe que eles continuam
se relacionando, mas por alguma razão, na história que aparece,
a cobra estava lá dentro do barco e a cobrinha vai subir lá
e vê. Inicia aí a agressividade que vai aumentando.
(Hélio leu até a palavra "tubarão ".)
Eu queria que vocês comparassem os dois xerox e vissem mais ou
menos o seguinte: com seria possível a gente com esta perspectiva
da revista (1o. xerox) dar conta destas informações? Reduzir
este relato em comportamento verbal é extremamente sofisticado
para uma criança de cinco anos. Reflete um mundo interno intenso.
Se eu for analisar isso como relato verbal, eu estaria analisando isso
como R. Se eu entender isso como uma relação que a criança
está fazendo com o mundo dela, interno e externo, ela sabe que
o pai existe, e o que ela pensa a respeito do pai. Este relato vira comportamento.
Através dessa terapia (agora orientação para os
pais), a mãe aceita ir no terapeuta mas o pai não. Porque
o pai não aceita essa criança? Vamos chegar agora na historia
de Luiza, porque enquanto ele teve uma amante que abortou, ela tinha uma
história escondida (cartas que ele não escrevia e nem respondia).
No entanto, a partir do momento que ela optou por ter um filho, as cartas
apareceram. Existia um filho concreto que para todas as pessoas da convivência
deste casal, sabe-se de repente: ela é solteira e aparece grávida.
Não dá mais para esconder. E mais do que isso, ela passa
pelo filho, ela tem uma coisa concreta desse relacionamento. Então,
ela ao mesmo tempo é na história ela (Luiza), e ao mesmo
tempo o primo Basílio (eu agora me refiro ao homem.), porque ela
é a pessoa que eu amo e ao mesmo tempo a pessoa que eu amo tem
as cartas e pode mostrá-las para o público.
Vamos ver o perfil desse indivíduo: extremamente perfeccionista,
rígido, faz as coisas erradas como qualquer ser humano faz, mas
quer manter uma aparência de que está tudo certo. Então,
para ele, no momento que ela passa a ter o filho, está com a posse
das cartas, ele fica escravo dela e ele também está definhando.
Como não é uma história antiga, é mais moderna,
da mesma maneira que ele não é a Luiza que pode ser morta
(pelos valores da época), é homem e leva uma vantagem neste
ponto de vista. Mas está definhando, não da masma forma
que a Luiza e eu não acredito que ele vá morrer, mas na
profissão parou-se a evolução, continuamente angustiado,
deprimido, perdeu a impulsividade dele, perdeu a força de luta
(ele tinha na profissão, uma participação política
bastante intensa, liderava movimentos. Lia lúcido e consciente
a respeito da categoria). Afastou-se de tudo isso porque agora se ele
vai defender uma idéia, vai a uma assembléia, ele acha que
podem falar (quem é você para falar se você tem um
filho escondido? quem é você para falar e defender direitos
se você tem um amante e você não assumiu?). Percebe?
Exatamente a mesma história.
Do ponto de vista do behaviorismo, dá para trabalhar com isso?
Sim. Nós temos que trabalhar com fenômenos humanos, os princípios
estão aí. Se eu vou dizer que ele está num esquema
de ansiedade, de desamparo (usando a expressão de Sileman), eu
explico tudo o que está acontecendo com ele. Porém, eu não
posso trazer esse rapaz ou essa criança para uma situação
de laboratório. Tem que passar por um processo de terapia.
Neste ponto de vista, o que vai fazer a terapeuta com essa história?
Porque essa criança não pode ser reduzida no seguinte aspecto:
é uma criança que quer saber se o pai dela vai assumí-la
ou não, e porquê. Isso você não resolve com
um procedimento de reforçamento. Eu poderia fazer um procedimento
para evitar perguntas embaraçosas. Toda vez que ele perguntasse:
"- onde está o meu pai?" (é possível),
ele parar de perguntar, você pune. Você pode usar técnicas
progressivamente mais poderosas. É possível que você
descubra uma que o leve a parar de perguntar, mas você não
vai ter uma técnica nessa direção que faça
com que ele pare de sentir e pensar. Então, neste sentido, aqui
está em questão o problema do desenvolvimento afetivo.
"Com que idade uma criança começa a ser capaz de fazer
movimentos em pinça?, etc..." Infelizmente os comportamentalistas
estão preocupados com isso. A psicologia é comportamental.
Essa psicologia está trabalhando com o desenvolvimento dessa criança.
Agora, por outro lado, ignorar a solicitação dessa mulher
pressionando você, "termine com ela, ela que leve a vida dela
e você a sua"... Outra vez existem vínculos afetivos
muito fortes. Ele está ligado a ela por afeto, por medo e por proteção
que ela dá. Isso foi analisado também, ela é uma
pessoa mais forte que ele em múltiplos aspectos. Então,
na verdade ela o protege em muitas coisas
Tudo isto entra em operação quando se está fazendo
uma abordagem clínica do problema e não há uma R
que você possa obter em cima de um procedimento isolado, e então
nos oferece conceitos. Esses conceitos são de aprendizagem. Exemplo:
como uma pessoa aprende a fugir? Como é que ela discrimina? como
é que uma pessoa pune? como levar uma pessoa a extinção?
Extinção não como dar água para o rato, mas
o conceito, o princípio. Então, o arsenal de recursos de
aprendizagem que o comportamentalismo oferece nos dá material para
criar e ir além.
Agora, você pode ter um vínculo muito estreito com a proposta
teórica e ficar buscando onde está água, onde está
o reforço, ou você pode trabalhar mais criativamente, mais
amplamente criando soluções que dê para a coisa um
sentido mais amplo. E isso você não encontra em livro nenhum.
Bem, você vai encontrar isso. Em 1o. lugar o profissional tem que
ter um embasamento teórico forte, sólido, na sua área
de escolha, não importa qual seja a área. No meu caso, que
optei mais para a linha comportamental eu estudo mais comportamentalismo.
O que não advoga a posição do ecletismo, porque o
ecletismo na verdade, gera confusão de pressupostos, confusão
de métodos e confusão teórica.
Agora, o que eu acho útil é que, além de um estudo
da sua abordagem, o profissional faça também discussões
sistemáticas com outros colegas a respeito de seu trabalho. Porque
na verdade, quando você está atuando, não é
como no laboratório. Você tem um procedimento e vai ter que
seguir esse procedimento x tempo até acabar a pesquisa. Não,
numa atuação prática você tem desafios que
são cotidianos. Então, você deve estar alerta e trocar
idéias com profissionais da mesma área que mostrem para
você quais são os seus viéses. Não ficar cada
dia para um lado. Para que você tome consciência de onde está
sua miopia, para se desviar dos caminhos falsos ou até preferências
afetivas que você não conta, das necessidades do cliente.
Uma terceira coisa que eu tenho achado muito útil, é você
ter periodicamente uma interação com profissionais de outras
áreas, seja com os que não sejam da psicologia ou que é
mais comum, de outras abordagens psicológicas. Essas pessoas trazem
para você preocupações que você tipicamente
não tem. Às vezes você pega uma discussão com
o analista e diz: mas você está analisando transferência?
Ocorreu-me que este cliente pode estar tendo um vínculo muito forte,
quer afetivo com, quer aversivo com. Por isso que a coisa não anda?
Então, esse tipo de preocupação é que eu direi
a um psicanalista. Quer dizer, um psicanalista por ter uma preocupação
teórica e até técnica diferente da minha. Ele enxerga
fenômenos humanos que estão presentes. Quer que eu seja psiquinalista,
quer eu seja comportamentalista e vice-versa. Eu poderia dizer a um analista
que observe outro cliente: será que não chegou a hora de
você reduzir a ansiedade desse cliente e levar e parar de girar
em círculo, fazer uma interpretação mais direta para
ele? Isso não quer dizer que o analista neste momento se transforme
num comportamentalista.
Então, eu acho que essa interpretação é produtiva
desde que você não perca o seu vínculo com a abordagem.
Acho também, que o profissional deve se calibrar em termos de suas
próprias necessidades afetivas. Está claro que todas as
propostas teóricas refletem o contexto histórico, o sujeito
que você pesquisou, o cliente, e reflete também as suas dificuldades
pessoais. Então, quando vocês estudam uma teoria Skinneriana
ou você estuda uma proposta Junguiana, ou Freudiana, dentro desta
proposta vocês vão entender muita coisa da problemática
da personalidade de cada um dos autôres. Temos que nos calibrarmos
emocionalmente. Ou passando por supervisão ou por teoria.
Para encerrar, só queria dizer que, em termos de aprendizagem,
a comportamental tem muito a dizer, mas só com os conceitos de
aprendizagem derivados do laboratório a gente não vai muito
longe. É preciso que você tenha uma atividade crítica
revendo e tomando conta da sua ideologia, do seu posicionamento político.
E que você tenha também uma interação com outras
influências para que seu trabalho seja criativo e voltado para as
reais necessidades que você está trabalhando.
Então, hoje em dia, o comportamentalismo não se resume
mais numa pesquisa de laboratório e infelizmente, embora existam
revistas como JABA que está mais voltada para uma linha de pesquisa
de problemas mais simples, mais limitados, isso não quer dizer
que o potencial da abordagem se restrinja a esse.
1 Curso ministrado no Encontro de Psicologia da Sociedade de Psicologia
de Ribeirão Preto-SP de 1987
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